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4 de abril de 2014

Festival de Teatro de Curitiba - Fringe 2014

   A peça experimental  "Relicário de Concreto",  veio com premiações na bagagem, foi contemplada pela 20ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, em 2012, e também recebeu o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, em 2013. O espetáculo, que estreou ontem (29/03), às 21h, no Teatro Cleón Jaques, agora viaja pelo país levando o experimentalismo e o teatro participativo, além das reflexões sobre o trabalho ao público de todo o Brasil.
   O Grupo, sediado no bairro de Perus, periferia de São Paulo, conta a história de uma fábrica com ligação ao bairro. A peça é montada com as memórias dos moradores que trabalharam nesta fábrica, sem que eles tenham o nome revelado, e que hoje é uma imensa ruína. A encenação traz uma reflexão  logo antes do espetáculo, quando são entregues fichas de emprego para todos preencherem, retratando um pouco da peça, que se inicia com uma greve.

   Com muito pó de cimento no palco e blocos de concreto, os personagens correm por todas as partes do palco, numa transpiração agonizante e escrava de um regime explorador, que castra os sonhos dos mesmos. O ponto alto do espetáculo é quando a plateia é convidada a jogar uma bexiga d’água em um “pelego” que trai a greve, e vai contra seus sonhos, em prol do trabalho, encharcando o palco com uma mistura de água e concreto por todos os lados, numa atmosfera sombria e asfixiante.

   A interatividade não para por aí, em certo momento um funcionário da fábrica, embriagado e reflexivo, convida a plateia a se embriagar com ele, oferecendo-lhes um copo de cachaça. Todos bebem e brindam, recebendo muitos aplausos ao término do espetáculo.


Por Bruno Bueno Requena
Fotos: Luh Silva






21 de janeiro de 2014

Sobre o Relicário de Concreto e a Fábrica de Cimento Portland Perus.


Em cena Nessah de Alvarenga e Rodolfo Vetore. Foto por Luh Silva.
       

           O espetáculo “Relicário de Concreto” propõe uma reflexão acerca da história da Fábrica de Cimento Portland Perus, destacando o período da Greve dos Queixadas entre 1962 e 1969.
       As memórias dos trabalhadores da fábrica atuam como disparadoras do espetáculo e para uma reflexão poética sobre questões que abordam relações trabalhistas e o sujeito revolucionário nos dias de hoje. A antiga fábrica fica localizada no bairro de Perus. Inaugurada em 1926, foi a primeira fábrica de cimento do Brasil a atingir uma produção em larga escala, além de ter sido a maior fornecedora de cimento para todo o país, na primeira metade do século XX.
       Sua fundação data de um momento específico da industrialização brasileira, empreendimento da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perús (CBCPP) resultante de um consórcio entre a Companhia Industrial e de Estrada de Ferro Perus-Pirapora e comerciantes canadenses. Sua inauguração foi realizada com muito entusiasmo pela imprensa paulistana, que a citava como a fábrica mais moderna e completa do mundo. O cimento Portland Perus contribuiu diretamente com a verticalização da cidade de São Paulo e foi a principal fonte de renda para muitos trabalhadores imigrantes, migrantes e moradores da região, possibilitando o crescimento do bairro de Perus que se expandiu em torno dela.
       Além disto, a Fabrica de Cimento Portland Perus foi palco e símbolo de movimentos de resistência, tendo o maior período de greve operária já registrado, a greve “dos Queixadas" (1962-1969), movimento que se estendeu por 7 anos, adentrando o período da ditadura militar no Brasil. Este acontecimento , marca a história do bairro e, principalmente, influencia  gerações.
       A busca incessante por lucro, por parte dos donos da fábrica e da lógica capitalista, gerou péssimas condições de trabalho, causando grande desgaste aos trabalhadores e ao bairro como um todo; os primeiros funcionários realizaram diversas reivindicações, conseguindo até algumas modificações no estatuto do trabalhador. Entretanto, a falta de investimento acabou gerando um alto nível de poluição que marca profundamente o local por conta do pó emanado de suas chaminés. Esse foi, aliás, um dos fatores que levaram ao encerramento de suas atividades em 1987.
       Hoje a Fabrica sofre a degradação natural do tempo e o abandono total por parte de seus proprietários, transformando-se em ruína. Foi tombada como patrimônio histórico da humanidade em 1992 e, desde então, existem diversas tentativas de revitalizar o local, transformando-o em um centro de cultura da memória do trabalhador destinado aos circuitos culturais locais e intervenções artísticas variadas.
       Trata-se, enfim, de uma história que se encontra solidamente inserida no cotidiano da população, plena de potencialidades para o debate sobre as relações entre história, memória, educação e arte. Promover esse debate entre os espectadores, professores, alunos e comunidade é o objetivo maior deste projeto.
Por Lucas Vitorino

            

15 de agosto de 2013

Grupo Pandora de Teatro (Relicário de Concreto) - Teaser

Temos Vagas




A peça "Relicário de concreto" começa  antes que entremos no teatro. Na entrada temos que preencher uma ficha de emprego na qual nos são feitas perguntas inusitadas e ficamos pensando: será que vamos interagir com os atores? Será que vamos participar da entrevista de emprego na peça?

Na entrada aparece escrito na porta em letras garrafais: GREVE! Somos recebidos por um líder grevista que nos incita a entrar em greve, mas aparece o pelego que diz: "Eu vou entrar, vocês vêm comigo"?

Entramos com o ator/trabalhador/pelego/fura-greves e nesse momento nos tornamos fura-greve também, pelegamos geral. Mas valeu a pena para ver a peça. Cheia de luz e sombra, a peça investe na poesia. Misturando presente e passado, o grupo Pandora de teatro constrói um belo discurso poético sobre a história da greve dos queixadas, mas que se torna universal, contando-nos sobre a opressão do trabalho.


Recomendo!

Geralda Aparecida DIas

Sobre o Relicário - Regina Célia de Oliveira


Quantos sonhos você já deixou para trás?



Relicário, baú onde guarda-se objetos raros e de grande valor afetivo. E há relicário maior do que o coração humano?

É nele onde guardamos os nossos tesouros mais íntimos, as nossas joias mais preciosas. A flor que gera a semente, e que gera, de novo, a flor e assim numa sucessão de ideias e sentimentos ideais, montamos um quebra-cabeças de muitas peças que, com o tempo se encaixam e formam nosso caráter mostrando o lugar que ocupamos no mundo, na sociedade e na vida. São os refluxos das memórias que nos constroem como seres humanos, traçando a nossa trajetória pelo universo das paixões, do amor, das vontades e de sentimentos mais diversos que abalam as nossas estruturas, tão frágeis. Elimine as memórias de um homem e, nada, ele terá para estimular a continuidade do viver.

Ser humano, talvez seja uma das mais difíceis provas da humanidade, pois se nascemos espírito bruto, e com as várias vivências vamos-nos lapidando em diamantes, ou pedras menos raras porém, não menos preciosas, fica difícil driblar o torvelinho da vida que nos trás tantas lutas para sobreviver numa sociedade onde o TER é tão presente e o SER , muitas vezes , fica escondido embaixo da lápide de concreto de um futuro que não sabemos se vai chegar. "Ser ou não Ser..." ainda é a questão.

Relicário de Concreto é um poema concreto, que busca tirar do expectador todas as reservas que ele possa ter, egoisticamente, guardado no recôndito do relicário coração. O ambiente intimista da fábrica, nos faz pelegos, nos faz queixadas, nos coloca na posição de peças de um quebra-cabeça humano. A visão de cada personagem, cada objeto de cena, tudo é colocado em choque com os sentimentos mais íntimos de cada expectador. A pouca luz cria sombras, cria ilusões que, no fundo, são as nossas próprias sombras que nos perseguem. Nesse sentido, creio que o teatro é mais que divertimento, é mais que uma realidade ficcional, é mais do que um encontro no átrio, é mais do que supõe a nossa vã filosofia.

Ao final da peça, quando fomos convidados a nos retirar confesso que , por um momento, me senti parte de tudo aquilo, foi como viajar no tempo, num moto contínuo de emoções que há muito ficou impregnado no pó gerado pela fábrica de cimento Perus. A história de Perus, da fábrica, a memória de cada pessoa que viveu esse momento da greve, da opressão enfim, são relíquias que são depositadas pela dramaturgia de Vince Vinnus, como peças de uma exposição onde, cada expectador é o próprio suporte da peça, porque, no fundo, faz do expectador um ator e do ator um co-autor da própria história implícita em cada cena.

Parabéns, Pandora, pelo belo trabalho e pelo clima de encantamento que só se consegue quando se coloca a alma em ação. E quando se faz isso, quanto menos se tem, mais se projeta no outro.



Regina Célia de Oliveira

25 de abril de 2013

Temporada no CEU Perus


UM POEMA HAICAI PARA O PALCO



Inspirado nas memórias dos trabalhadores da Fabrica de Cimento Portland Perus e na Greve dos Queixadas

Sinopse: Jovem procura emprego em uma fábrica de cimento, vê-se enredado por uma atmosfera de sonho e memória, onde cenas de um passado não muito distante irão misturar-se à suas angustias e preocupações modernas. Passado e presente apresentam-se em uma única trajetória lírica, poética, onde a dualidade Queixada/Pelego é extrapolada em cenas e fragmentos de uma complexa rede de relações.

Quando: 04 de maio até 30 de junho, sábados e domingos às 18h30
Duração: 60 minutos / Lotação: 40 lugares
Onde: CEU Perus
End: Rua Bernardo José de Lorena, S/N – Perus – São Paulo/SP
(Ao lado da estação Perus - CPTM)
Contato: grupopandoradeteatro@yahoo.com.br
ATIVIDADE GRATUITA

- Relicário de Concreto - Estréia em maio



Quando a noite brilha
Em um futuro abandonado
Só se pode querer uma recompensa
Um abraço circular
De uma velha senhora
Que habita os sonhos
De um futuro concreto
- Vince Vinnus